Pouco mais de nove e meia da noite. Samantha Cherry caminha vestindo suas botas de cano alto e salto fino, uma microssaia de vinil e espartilho de couro vermelho. O som do salto batendo na calçada ecoa por toda rua. Um sedã escuro com vidros filmados se aproxima e desce o vidro. Lá dentro, um homem com cinquenta e poucos anos, um pouco acima do peso e um início discreto de calvície nos cabelos lisos e castanhos dá um sorriso sacana. Veste um terno cinza e camisa branca. Deve ter dito à mulher que irá trabalhar até de madrugada. Deve ser advogado ou administrador de empresas, porque pronuncia bem cada palavra.

-Está disponível, querida? – o sorriso sacana se alarga mais.

-Pra um garanhão igual você? Lógico que sim. – Ela retribui o sorriso sacana com uma versão irresistível do seu próprio. Uma jogada sensual de cabelo completa a cena.

-Mas preciso saber, porque tenho preferências bastante específicas. Você faz sadomasoquismo? – Ela consegue ver um ligeiro constrangimento. Algumas colegas de profissão evitam esse tipo de programa. Não ela, que se considera profissional ao extremo.

-Faço o que você me pagar pra fazer, meu lindo. – Ela afrouxa com as mãos os cordões de cima do espartilho, deixando ainda mais a mostra os seios perfeitos. Ele estremece e abre a porta para ela entrar.

Cerca de dez minutos depois, estão no quarto do Gran Imperial Motel, o mais luxuoso da cidade. Se beijam por alguns minutos, e ele pede que ela tome um banho. Diz que perfume barato ataca sua rinite. Ela obedece na hora. Quando volta para o quarto, ele está nu e uma série de apetrechos estão dispostos no criado mudo ao lado da imensa cama redonda com espelho iluminado em vermelho no teto. Pede que ela domine, então Samantha coloca nele uma coleira de couro com guia de metal, semelhante a um enforcador de cães, destes utilizados para conter animais grandes que puxam demais quando saem para passear. Ela o joga na cama e começa a puxar enquanto sobe sobre ele. Nada. Ele não funciona. Pede um momento e pega na carteira uma pequena pílula azul.

-Muito estresse no escritório, sabe? – desta vez o sorriso sacana dá lugar a um riso sem graça.

-Não se preocupa, meu bem. Tem muitos rapazinhos que precisam disso também.

-Podemos conversar um pouco até fazer efeito? – Ela odiava conversar muito com os clientes, mas aquela era uma noite especial.

-Claro, lindo. –Ela se aproximou dele na cama e sentou em posição de lótus. Ele se sentou de costas para ela na cama, como se ainda tivesse vergonha de ter que usar o remédio.

-Eu sei que não é o melhor assunto pra essas horas, mas perigo sempre me anima. Coisa de louco esses assassinatos que tem acontecido na cidade de uns tempos pra cá, não é? Esse lance dos corpos sem sangue e tudo mais. Será uma dessas seitas satânicas ou algo assim? E vocês que trabalham à noite, nas ruas, sem segurança nenhuma, devem morrer de medo, não é?

Ele sentiu as mãos dela deslizarem suaves por suas costas, depois os lábios quentes tocaram seu pescoço, e estava quase dizendo que não estava pronto ainda quando sentiu o par de caninos extremamente afiados penetrarem sua pele, carne e por fim chegarem à jugular. Com os olhos arregalados, tentou desesperadamente se soltar, virar e enfrentar, mas ela era muito mais forte que ele e envolveu, ainda por trás, seus braços com os dela em um abraço que parecia ser de ferro. Ele agonizou e se debateu, então o último litro de sangue abandonou seu corpo. Ela estava com muita fome naquela noite. Samantha jogou o corpo de bruços na cama, inerte e pálido. Vinha pensando se não havia chegado o momento de criar uma companhia para si, mas certamente não era ele.

Envolveu o corpo nos lençóis e edredons do quarto por nenhuma razão especial senão capricho, e de pé, sangue escorrendo até o pescoço, se sentiu ainda mais poderosa do que de costume. Se lavou na pia do banheiro e partiu. Saiu do motel por uma porta nos fundos, por onde saiam justamente as putas e amantes. Ainda havia muita noite pela frente, mas como não sentia mais fome se saciaria apenas com prazer. Talvez.

[Autor: Héber Zalewska]

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